A dengue é uma das arboviroses mais prevalentes no mundo e um desafio constante para a saúde pública brasileira. Transmitida pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, essa doença apresenta um espectro clínico amplo, que vai desde quadros assintomáticos até formas graves que podem evoluir para o óbito. Com o aumento cíclico de casos e a cocirculação de diferentes sorotipos do vírus (DENV-1, 2, 3 e 4), entender as nuances do diagnóstico e o manejo correto torna-se fundamental para evitar complicações.
Neste guia, vamos entender, detalhadamente, como identificar a doença, realizar o estadiamento clínico por grupos e as melhores práticas de tratamento e prevenção. Nosso objetivo é oferecer uma consulta rápida e técnica para quem atua na Medicina e informações vitais para a população geral.
O vetor e o ciclo de transmissão
O principal responsável pela transmissão é o Aedes aegypti, um mosquito doméstico com hábitos preferencialmente diurnos, que se reproduz em áreas urbanas com acúmulo de água parada. Embora sua picada seja mais comum durante o dia, ele também pode picar à noite se houver oportunidade.
Para entender melhor como combater o mosquito, é essencial conhecer as estratégias do Ministério da Saúde sobre o Aedes aegypti. O controle do vetor exige ações permanentes de eliminação de criadouros, um papel que deve ser compartilhado entre o poder público e a sociedade civil.
Como identificar a dengue: sintomas e diagnóstico diferencial
O quadro clínico inicial da dengue costuma ser marcado por febre alta de início súbito, acompanhada de cefaleia, mialgia (dor muscular) e dor retro-orbital (atrás dos olhos). No entanto, o desafio diagnóstico reside na semelhança com outras arboviroses, como Zika e Chikungunya.
Como diferenciar: dengue, Zika e Chikungunya
Embora as três doenças apresentem sintomas parecidos, alguns sinais ajudam a distinguir cada quadro.
- Dengue: é marcada por exames que mostram a queda de glóbulos brancos e plaquetas, além da concentração do sangue (aumento do hematócrito). No dia a dia, o paciente sente muita dor atrás dos olhos e perda total de apetite, sinais fortes de que se trata de dengue.
- Chikungunya: o grande diferencial é a dor intensa nas articulações (juntas), que pode ser incapacitante. É comum que essas regiões fiquem também inchadas e inflamadas devido à artrite causada pelo vírus.
- Zika: as manchas vermelhas na pele costumam aparecer logo nos primeiros dias, acompanhadas de uma coceira muito forte. Outro sinal comum é a vermelhidão nos olhos (conjuntivite), mas sem a presença de secreção ou remela.
Para um aprofundamento técnico, recomendamos a leitura das Diretrizes da OPAS para Arboviroses.


Entenda as etapas do tratamento: grupos A, B, C e D
O acompanhamento médico da dengue depende da gravidade dos sintomas e da rapidez com que o corpo responde à infecção. Por isso, nós dividimos os pacientes em quatro grupos de risco. Essa classificação decide se o paciente poderá se cuidar em casa ou se precisará ficar no hospital.
1. Grupo A (dengue leve e sem riscos adicionais)
Pacientes que não possuem outras doenças, não pertencem a grupos de risco e conseguem beber líquidos normalmente.
O tratamento é feito em casa, com muito repouso e hidratação intensa. A recomendação é beber cerca de 60 ml de líquido para cada quilo de peso por dia. Um terço desse total deve ser soro de reidratação oral e o restante pode ser água, sucos naturais e água de coco.
2. Grupo B (dengue leve, mas com condições especiais)
Inclui gestantes, idosos, pessoas com doenças crônicas ou que moram longe de postos de saúde. O paciente precisa de observação e deve fazer um exame de sangue (hemograma) imediatamente. É necessário aguardar os resultados dos exames na unidade de saúde para que o médico decida se o tratamento continua em casa ou no hospital.
3. Grupo C (dengue com sinais de alerta)
Este grupo apresenta sinais de que o corpo está perdendo líquidos dos vasos sanguíneos para os tecidos, o que é perigoso. Os sinais de alerta são:
- Dor na barriga muito forte e que não passa;
- Vômitos constantes;
- Inchaço ou acúmulo de líquidos (no abdômen ou pulmão);
- Tontura ao se levantar ou desmaio;
- Fígado inchado e dolorido;
- Muita irritação ou sonolência excessiva.
Exige internação hospitalar imediata para receber soro e medicamentos direto na veia.
4. Grupo D (dengue grave)
Pacientes que apresentam sinais de choque (queda brusca da pressão), dificuldade grave para respirar ou comprometimento de órgãos como coração e cérebro.
Requer internação imediata em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O tratamento envolve reposição de líquidos na veia de forma muito rápida e monitoramento constante de todos os sinais vitais para salvar a vida do paciente.
Para protocolos detalhados de cada grupo, consulte o manual de Diagnóstico e Manejo Clínico do Ministério da Saúde.
A importância da hidratação vigorosa
A base do tratamento da dengue, independentemente do grupo, é a hidratação. Como a doença causa um aumento da permeabilidade vascular, o líquido sai dos vasos sanguíneos para os tecidos, o que pode levar ao choque hipovolêmico.
A hidratação oral deve ser iniciada imediatamente após a suspeita diagnóstica, mesmo antes da confirmação laboratorial. É vital que o paciente entenda que a ingestão de líquidos não é apenas para “matar a sede”, mas uma intervenção terapêutica para manter a pressão arterial e a perfusão dos órgãos.
No nosso blog, saiba mais sobre como o SUS atua no combate à dengue.
Riscos da automedicação
Em casos de suspeita de dengue, a automedicação é extremamente perigosa. O uso de anti-inflamatórios não esteroidais (como ácido acetilsalicílico e ibuprofeno) deve ser evitado, pois essas substâncias podem interferir na coagulação e aumentar o risco de hemorragias.
O controle da febre e da dor deve ser feito apenas com analgésicos simples, como o paracetamol ou a dipirona, respeitando sempre a dose máxima recomendada. Recomendamos a leitura deste texto do nosso blog, no qual abordamos os riscos da automedicação em surtos de dengue.
Vacinação: uma nova fronteira na prevenção
Recentemente, a incorporação de novas vacinas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) trouxe esperança no controle da doença. A vacina Qdenga, um imunizante tetravalente, demonstrou eficácia na redução de casos graves e hospitalizações tanto em indivíduos que já tiveram dengue quanto naqueles que nunca foram expostos ao vírus.
A vacinação é uma estratégia complementar fundamental ao controle do vetor. Para saber quem pode receber o imunizante e o esquema vacinal, veja nosso post completo sobre a vacina da dengue.
Considerações sobre grupos específicos
Alguns grupos precisam de atenção redobrada, pois a doença pode se manifestar de forma diferente ou ser mais difícil de identificar.
Dengue em crianças
Nos pequenos, os primeiros sinais podem ser confundidos com uma virose comum. Fique atento se a criança apresentar sonolência excessiva, recusar comida, tiver diarreia ou vômitos.
O quadro pode piorar muito rápido, por isso, se notar choro que não para ou irritabilidade fora do comum, procure ajuda médica imediatamente. Esses podem ser os únicos sinais de dor que ela consegue demonstrar.
Dengue em gestantes
A gravidez provoca mudanças naturais no corpo da mulher que podem mascarar a gravidade da dengue. Como a gestante já tem mais volume de sangue circulando, os exames laboratoriais podem ser mais difíceis de interpretar.
Por esse risco, toda grávida com suspeita de dengue é tratada com prioridade (no mínimo, dentro do Grupo B) e precisa de um acompanhamento médico muito rigoroso para garantir a segurança dela e do bebê.
Juntos no combate
Vencer a dengue exige um esforço coletivo: desde o cuidado em não deixar água parada (controle do mosquito) até a vacinação e, principalmente, um atendimento médico rápido. Para nós, profissionais da Medicina, dominar os protocolos de tratamento e garantir que o paciente receba a hidratação correta são as formas mais eficazes de salvar vidas e evitar complicações.
Para pacientes, o mais importante é conhecer os sinais de alerta que o corpo envia. Saber identificar o momento certo de procurar o hospital é o que faz toda a diferença na sua recuperação. Juntos, podemos diminuir o impacto dessa doença em nossa comunidade.
Para continuar aprendendo sobre saúde e cuidados preventivos, visite o portal Faça Medicina | Afya e, para dados oficiais, consulte sempre o portal de informações sobre a dengue, do Ministério da Saúde.


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